
Carving grind com cruiser, no bowl da Swell. | Crédito da imagem: Arquivo pessoal
Invert na pista de São Leopoldo, RS Skatista desde os 12 anos de idade, o gaúcho Luís Henrique Müller descobriu que tinha câncer no sangue aos 19. Com muito skate na veia ele vem batalhando contra sua doença e motivando outros pacientes à lutar pela vida através de um vídeo no Youtube com o seguinte texto:
“A primeira virtude que o skate nos ensina é a perseverança. Somente quem é persistente consegue superar aquele obstáculo na pista ou consegue aprender novas manobras. Esses ensinamentos que o skate nos passa, "do chão não passa", "levanta e vai de novo", não servem apenas para a prática do esporte, mas servem também para vida. E é por isso que escolhi o skate como meio de comunicação para mostrar para as pessoas que quem tem Câncer não ficarem apenas no Hospital passando mal. Nós estamos prontos para experimentar tudo que a vida tem a nos oferecer sejam elas boas ou ruins.”
Aos 26 anos de idade, Luís está fazendo o tratamento de quimioterapia e o skate é uma das grandes motivações para viver.
Skate na Veia Salva! A luta de Luís Henrique Müllercontra o câncer.Conte sua história com o skate.
Quando eu tinha 11 anos o meu pai veio a falecer, deixando minha mãe com cinco filhos para criar. Eu sou o mais novo, gêmeo de uma menina. Com a morte do meu pai, fiquei mais próximo do meu irmão mais velho, André, e comecei a acompanhar ele e seus amigos quando iam andar de skate. Nesse período o meu segundo irmão, Alberto, também começou a praticar o esporte. Como resultado, acabei ganhando um skate de aniversário de 12 anos.
A partir de então, os três irmãos sempre andaram de skate. Isso até os meus 14 anos, quando o André foi tentar a sorte no EUA, trabalhando como imigrante. Ficando apenas eu e o Alberto, que também acabou indo para aos EUA quando eu tinha 15 anos. Assim, eu fiquei sozinho no Brasil e não tive outra escolha, a não ser partir para o Street - nós três sempre fomos mais ligados nas transições; já que não tinha quem me levasse nas pistas.
No Street, eu tenho que lhe dizer, eu sou um desastre. Aos 15 anos rompi o ligamento cruzado do joelho esquerdo, tive que operar o menisco e colocar dois parafusos e fazer seis meses de fisioterapia. Aos 17 anos rompi o cruzado do joelho direito, mesmo processo do primeiro joelho. Com 18 anos decidi dar um tempo no Street e ficar mais nas transições. Eu não tenho o que me queixar desse período dos meus 12 anos aos 18 anos de skate, mesmo com alguns tropeços no caminho foi um ótimo momento de grandes aventuras e amizades porque o skate também me levava em tudo que era lugar, ele também era meu meio de transporte. Essa alegria toda durou até os meus 19 anos, quando veio a notícia da doença.

Em Fevereiro de 2004 foi diagnosticado que eu tinha Leucemia Linfóide Aguda, eu tinha 19 anos. O tratamento hospitalar durou aproximadamente um ano. Nesse um ano aconteceram muitas coisas... muitas histórias de hospital. Depois dessa primeira etapa veio o que os médicos chamam de manutenção, que tem um período de espera de cinco anos. Se nesses cinco anos a doença não voltar, você é considerado curado. Então os dois primeiros anos do período da manutenção eu continuei fazendo quimioterapia, mas numa potência muito inferior a que fazia no hospital, por isso que era permitido voltar para casa durante o tratamento. E os últimos três anos cortaram os remédios e deixaram o corpo seguir naturalmente. Em março de 2011 completaram os cinco anos de manutenção e eu fui declarado curado, mas em 19 de outubro a doença voltou a aparecer nos meus exames de sangue.
Com Omar Hassan A minha vida antes da doença era o skate. Tudo envolvia ele. Eu não me preocupava em ter uma qualificação, um estudo superior ou até mesmo uma carreira, eu só respirava o skate. E para os meus parâmetros e minhas expectativas futuras de vida da época, eu estava muito feliz. Quando veio a doença, a minha maneira de ver a vida não mudou. Na verdade, decidi que iria fazer o tratamento e esperar para ver como tudo iria terminar.
Então, três anos depois de quimioterapia (um ano hospitalar e dois anos ambulatorial), o médico me liberou para levar uma vida normal, ver como o corpo iria se comportar nos próximos três anos. Óbvio que a primeira coisa que fiz foi voltar a andar de skate. E foi maravilho, sorriso de orelha a orelha, mas depois de um tempo as coisas pioraram porque eu percebi que a forma que eu enxergava a minha vida talvez não fosse o melhor caminho.
Eu só comecei a entender as coisas ao meu redor depois que terminei a quimioterapia e voltei para a sociedade. Eu tinha 24 anos, com apenas segundo grau completo e a minha experiência de carteira assinada era de dois empregos.
Então tracei um plano: arranjaria um emprego, me esforçaria para seguir uma carreira nessa empresa e cursaria uma faculdade, para que assim eu tivesse uma renda que me permitisse levar a vida com um certo conforto e pudesse continuar a fazer uma das coisas que mais amo na vida, que é andar de skate.
Nesses três anos pós quimioterapia eu evolui muito, aprendi muitos valores, segui outro caminho, aprendi a ser mais flexível. Durante a minha juventude sempre tracei um caminho e após todos esses acontecimentos percebi que deveria tomar outro. Agora, com 26 anos a doença voltou e com ela todas as sensações e sentimentos. É complicado aceitar tudo isso novamente. Acho que foi por isso que veio a ideia do vídeo, porque a vida me acertou novamente, mas não tirou a minha alegria e vontade de continuar a batalhar.

Qual a importância do skate nesse momento?
O skate é uma válvula de escape, uma fuga dos problemas, é a alegria de sentir o coração bater forte no peito, é meu companheiro, é a possibilidade de imaginar, criar e continuar sonhando.
Você conhece a campanha Grind For Life, dos EUA?
Não conheço muito bem o evento, mas conheço um pouco da história do Mike Rogers.
Alguns skatistas já derrotaram essa doença, como o Carlos Yellow. Chegou a conhecer e conversar com algum deles?
Infelizmente não, seria uma grande escola.
Com os amigos, na campanha "Corrida pela Vida" Foto: Arquivo pessoal Você participa de algumas campanhas. Conta um pouco sobre elas.
A campanha mais recente que eu participei foi a da corrida pela vida, que ocorre uma vez ao ano, em prol das crianças portadoras de câncer. Que é promovido pelo instituto do câncer infantil.
Recentemente foi criado pelo Senac-RS uma campanha estimulando a doação de medula óssea e a minha imagem foi usada para promover a campanha. A corrida pela vida você compra uma camiseta no valor de R$15 para ajudar a instituição e participa de uma corrida que tem um percurso de 5 km.
O meu objetivo foi comprar a camiseta e completar o percurso, pois fazia dois dias que eu havia saído do hospital e estava muito debilitado. Levei 50 minutos para completar o percurso, fui um dos últimos a chegar (risos).
Sobre a campanha que o Senac-RS, onde eu trabalho e faço faculdade, eu fiquei muito emocionado ao ver como as pessoas são capazes de se mobilizar para ajudar o próximo. Existem mais dois eventos no facebook que também tratam sobre o assunto de doação que também usam a minha imagem. Eu enxergo essas campanhas não apenas para ajudar o Luis Henrique, mas para ajudar todos os portadores de câncer, porque uma vez cadastrado no banco de doadores, o doador pode salvar uma vida a qualquer momento. E eu fico feliz em saber que a minha imagem. Onde eu puder ajudar e fazer a diferença estarei presente.
Quais os próximos passos do seu tratamento?
Os passos que vou seguir não serão muito diferentes dos que eu segui na primeira vez que fiz o tratamento, a única diferença desta vez, é que vou entrar na fila de transplante de medula óssea. A primeira vez que fiz o tratamento não foi cogitado essa hipótese porque eu estava respondendo muito bem ao tratamento. Agora que o tratamento vai ser retomado pela segunda vez, já está sendo estudado essa possibilidade, já que quando a doença volta, ela pode voltar mais agressiva. Eu já comecei, novamente, o primeiro ano de tratamento hospitalar, estou indo para o segundo ciclo. São oito ciclos, o que dá em média, um ano de quimioterapia internado no hospital.
O que é ter Skate na Veia?
Perseverança. Não desistir jamais, é essa virtude que ele injeta nas nossas veias.








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